Máximas do Sheikh Muhammad al-Madani

Máximas do Sheikh Muhammad al-Madani

Hikam [máximas] é o plural irregular de hikma [[O termo hikma é corânico: Corão: II, v. 123/129, v.146, v.151; III, v.75/81 ; IV, v. 54/57 ; LIV, v.5 ; XLII, v. 63 ; XXXIII, v. 34 ; XXXVIII, v. 19, v. 20, etc. No pensamento árabe especulativo dos séculos IV a X, hikma é a purificação da alma graça aos princípios morais. Ibn Sina define hikma também: “A sabedoria é a passagem da alma do homem à perfeição possível por ele nos dois limites da ciência e da ação”, al-Burhān, p. 260, (extrato de Al-Šifā’), ed. A. Badawī, Cairo, 1954; A. M. Goichon, art. « Hikma », E. I. III, p. 389-390.]] , termo que designa, em árabe clássico, dois significados: de um lado, significa a mensagem em sentenças, expressa em um estilo conciso e expressivo. Hikma é todo enunciado que veicula um conteúdo de sabedoria, representado de uma maneira incisiva. A máxima se define também como um discurso edificante visando educar os espíritos graça à preciosidade do estilo e à consistência do conteúdo espiritual descrito. De outra parte, esse termo designa a sabedoria moral que caracteriza o hakim, homem sábio. É uma espécie de profundidade humana que dota quem a possua de uma visão abrangente, uma sólida experiência e integridade ética.

Os primeiros ascetas muçulmanos defendem o afastamento desse baixo-mundo e chamam a seguirem em direção à última morada. Os grandes mestres sufis exprimem seus pensamentos não somente pela poesia, mas também em sentenças curtas e intensas. As primeiras sentenças e provérbios remontam aos sufis de Bagdá e de Kufa. Provavelmente, por causa da abundância desses textos, Abū Hayyān al-Tawhīdī prometeu consagrar um volume inteiro às sentenças dos sufis de sua época [[Al-Tawhīdī, al-Basā’ir wa-l-dahā’ir, I, p. 152.]] . Não podendo manter sua palavra, ele aspergiu seu Basā’ir wa-l-dahā’ir nesse gênero de máximas.

O autor mais conhecido que compôs uma obra desse tipo é Ibn ‘Atā’ Allāh de Alexandria (m. 709/1309), autor do al-Hikam al-‘atā’iyya [[G. Makdisi, art. Ibn ‘Atā’ Allāh, em EI², III, p. 745.]] . Abū Madayn compôs também 170 máximas. O sheikh al-Alāwī fez do mesmo modo. Seus hikam foram comentados.

Sīdī Muhammad al-Madanī compôs, por sua vez, 101 máximas. Elas foram reunidas por três de seus discípulos: sidi Muhammad Taqtaq (m. 1987), sidi al-Tāhir ‘Abd al-Hādī (m. 2003) e sidi al-Mabrūk Ibn al-Hāğ (m. 2000). O próprio autor destaca em 1950 que ele havia pedido a seus três discípulos de recolher essas máximas em uma mesma obra.

O Nome Supremo

Quem invoca o Nome Supremo (Allāh) torna presentes os Atributos de Perfeição de Allāh, que enviou Seus Mensageiros com a Orientação.

As Luzes da Unidade [divina] se derramam então sobre ele e o mergulham no Oceano da Magnificência única até que ele se extinga em tudo que não é Ele e que permaneça por Sua Luz e Seu Esplendor.

A arte do Sufismo (tasawwuf)

Comparado aos outros ramos do saber, a arte do tasawwuf é um fruto benéfico. Seus depositários autênticos são astros luminosos. Suas almas são inspiradas por pensamentos refinados, inacessíveis mesmo aos intelectos mais penetrantes. Isso à exceção das pessoas a quem Allāh dá Sua Luz para caminhar nos jardins do Conhecimento, e asas para voar ao horizonte de sutilezas espirituais.

“Aquele a quem Allah não dá luz, não tem luz”.[[Corão, XXIV (A Luz) , v. 40 ; D. Masson, O Corão, II, p. 436.]]

Esperança

A própria essência da esperança é que o coração repouse sobre a Generosidade Daquele em que ele espera.

A esperança tem como virtude revestir o aspirante com o adorno da liberdade, do mesmo modo que o medo permanente [de Allah] o estimule a se qualificar para a escravidão. Graças a essas duas asas, o aspirante poderá voar no reino de Allah (que Ele seja exaltado).

Estações espirituais

Os crentes comuns esperam a Generosidade de Allah e Seus benefícios.

A elite espera, quanto a ela, Sua proximidade e Sua beleza.

Os crentes comuns temem Seu terrível Castigo, enquanto que a elite teme ser cortada e velada d’Ele.

Que Allah nos preserve.

Sinceridade

Quem se adornar com a virtude da sinceridade para com Allah e seu Mensageiro, seu Mestre e seus irmãos, assim como para com todos os crentes, Allah aumenta sua fé, sua segurança, sua força e sua estabilidade.

Muhammad, que Ele seja exaltado, diz: “de modo que Allah recompense os sinceros de sua sinceridade”. [[Extrato de um hadit relatado por al-Bayhaqī.]]

Tapete da Realização

Os Guias Iniciáticos são os Cálices da Realização.

Beberão deles aqueles que se sentarem respeitosamente com eles no Tapete da Realização.

“Respeitar aquele que Allah declarou sagrado é, para vós, um bem próximo de vosso Senhor”.

Coração Sadio

Na casa das pessoas de Allah, o coração sadio é aquele que não tenha sido inundado das formas dos seres manifestados, nem perturbado pelas alteridades ilusórias.

Ele é vazio daquilo que não seja Allah.

Nada lhe afasta d’Ele.

Ao contrário, tudo é para ele embaçado, evanescente.

Início e Fim

O caminho do Tasawwuf tem um começo e um fim. Seu começo é apenas a observância das obrigações ritualísticas, a realização, na medida do possível, de atos além dos obrigatórios e o adorno com as nobres atitudes. Quanto a seu fim, é conhecer verdadeiramente Allah, exaltado seja, chegar a Sua Presença sagrada, deleitar-se com Sua Intimidade e abandonar o mundo dos sentidos. “E é ao teu Senhor que o é o resultado final” [[O Corão LIII (A Estrela) v.42 ; D. Masson, O Corão, II, p.657.]] .

Discípulos

Seja qual for seu grupo ou área, os alunos não tiram nenhum proveito de sua ciência se não receberem um olhar de ternura de seu Mestre. Pior ainda, eles retornarão sobre seus passos.

Olhar

O discípulo, pelo coração puro e submissão sincera com o Mestre, terá direito ao seu olhar afetuoso e à sua ternura espiritual.

O Mestre derramará sobre ele aquilo que Allah lhe deu. Ele então lhe encaminhará à Presença profética ou à Presença divina. Assim, ele se torna um dos servidores próximos de Allah. Tal é o objetivo esperado da companhia de um Mestre.

Notas de “O Livro dos Segredos” de Farid Attar

O primeiro Um, que não tem início. O Um último, que não tem fim.

Único aparente – oculto em sua manifestação. Único oculto – mais manifesto que a luz.

Jamais sua Majestade teve princípio. Seu reino carece de limites e de fim.

Um Deus que se conhece a Si mesmo.

Ninguém possui indício do que Ele é na realidade, pois Ele é e não é.

Se um dia nossa alma ingressar na Via, não poderá alcançar sua essência incondicionada…

Invoca ao Uno, deseja o Uno, busca o Uno. Vê o Uno, conhece o Uno e afirma o que é o Uno.

No começo, ou ao final, é somente um.

Em cada átomo vejo Tua presença… Tu és o Kosmos inteiro.

O mundo está cheio de Teu nome…. Que sua luz seja exaltada.

Limitar-se à Unidade é negar as causas segundas. Nesta Unidade, por que buscar a união?

O que se vai deste mundo não conhece o segredo. Foi também selado seu segredo manifesto –ninguém encontra o fio que conduz até sua origem.

Só a Verdade (al-haqq) é digna.

O Pleroma Supremo não cessa de maravilhar-se da teofania (de Allah).

Se teu olho se abrir ao sol do universo, na tua frente se abrirá a porta do mar da alma.

Estuda teu interior, conhece-te a ti mesmo. Coloca-te em marcha, pois “se a ti mesmo conheces, conheces a teu Senhor”.

Quando o ser penetra o coração dos segredos se alimenta da sabedoria do Amor.

Mergulha na busca dos segredos. Todo átomo aparecerá na Via como luz das luzes.

Do véu dos segredos surgirá um longo caminho cujo final não se vê…

Ilumina a tocha da alma com a Luz do Amor. Do bem-amado aprende o hino do amor.

Como Davi, canta os versos dos Extraviados.

Para os corações exaltados canta teus salmos de amor. Com palavras de amor faz uma litania.

Quando o amor aparece, ele cega a razão. Dos dois mundos a razão só vê o aparente. O amor só vê o Amado. A razão é a moeda deste mundo inferior. O amor é o elixir da vida.

O amor e o coração são dois espelhos que se olham desde sempre. Entre ambos há um véu –quando o véu é retirado só há um (e não dois).

O sol é uma mônada… Do sol do amor o universo é a sombra.

A perfeição do gnóstico se realiza na extinção (fana).

Para os amantes a perfeição é ebriedade. Para os profetas é a morada que não tem lugar. Buscá-la é a perfeição desta via. O coração do sábio conhece este segredo.

Sua vontade é suprema, pois não há causa anterior a Ele.

Tua condição de homem é um engano da imaginação.

Elege como eu a pobreza.

Na alma há um desejo ardente do Amigo.

Se a tua alma se libera da forma, os dois mundos não serão mais um véu para ti – verás os dois mundos de uma só vez.

O que não renuncia aos dois mundos, não será confidente no Coro da União.

Nesta via perdestes a ti mesmo.

Teu coração é o lugar da unificação e um lugar altíssimo para a Verdade.

Teu coração é um Templo.

Caso morras sem o ‘eu’ és puro se te sepultarem ou cremarem…

Trechos das “Cartas” de Junaid

A gnosis tem um grau inicial e um grau supremo, onde se situa a elite espiritual.

Para aqueles que possuem gnosis, seu objeto é infinito.

Como a gnosis poderia englobar Aquele o qual o pensamento não alcança, a razão não identifica, que o espírito não imagina e cuja maneira de ser escapa à reflexão!

A mais sábia das criaturas em relação a esse assunto, é aquela que reconhece com a maior das forças sua incapacidade de apreender Sua grandeza.

Ele é eterno, e tudo o que é outro senão Ele é produzido no tempo.

Ele preexiste, e tudo o que é outro senão Ele tem um começo.

Ele é a Divindade, e tudo o que é outro senão Ele é objeto dessa Divindade.

Ele é Aquele que é sábio, sem que ninguém o tenha instruído e sem que Ele obtenha informações de outro que não seja Ele, enquanto todos os outros seres sábios não o são graças à Sua Ciência.

Glória a Ele, que é o Primeiro sem começo e que é o Perpétuo sem fim!

A elite espiritual dos santos situa-se no grau mais elevado da gnosis.

Quanto aos crentes comuns, eles se situam no grau inicial da gnosis, e os sábios (ou os gnósticos = al-ârifûn) lhes proporcionam testemunho sobre esses dois graus da gnosis, o inferior e o superior.

Seu testemunho, no que diz respeito ao nível inferior, consiste na proclamação da Sua unicidade, na negação radical da existência de seres semelhantes a Ele.

Seu testemunho, no que diz respeito ao nível mais elevado da gnosis, consiste em realizar seus deveres para com Ele, dar-lhe preferência sobre todas as Suas criaturas, praticar as virtudes mais nobres e abster-se de tudo o que não aproxima Dele.

A gnosis com a qual a elite espiritual supera o comum dos crentes é o sentimento intenso, provado pelo coração, da infinitude de Sua grandeza e de Sua majestade, de Seu poder agente e da Sua ciência que engloba tudo, de Sua generosidade transbordante e de Seus favores.

Existem 3 tipos de homens: aqueles que partem para a busca e que seguem seu caminho; aqueles que chegam e param e aqueles que entram e que repousam.

Aquele que parte em busca de Deus se dirigem a Ele deixando-se guiar pelas indicações do ensinamento literalista e legalista. Seu comportamento em relação a Deus é estritamente exterior.

Aquele que chega à porta e pára é aquele que é consciente dos caminhos que aproximam Dele, graças às indicações que lhe proporciona a purificação de seu ser interior e graças aos dons das preciosas instruções das quais ele está pleno. Seu comportamento em relação a Deus é interior.

Aquele que entra (diante Dele) com todo o seu coração e que se afastou da consideração de tudo o que é outro senão Ele, não tendo olhos senão para o que Ele lhe mostra, executando com presteza o seu Mestre lhe ordena, é aquele que “realiza” a gnosis da Unidade de Deus.

A ciência do tasawwuf é aquela que só a conhece o homem dotado de intuição e familizarizado com a Verdade. Não a conhece aquele que não tem o testemunho interior.

O sufismo está baseado em 8 virtudes que lhe são próprias: generosidade da alma, aceitação do destino, paciência, discrição na fala, exílio voluntário, uso da lã, peregrinação e pobreza.

A renúncia é considerar esse mundo inferior pouca coisa e apagar todo traço seu no coração. A pobreza espiritual — é o coração vazio de formas.

A última estação do sábio (ou do gnóstico) é a liberdade.

Sentenças de Abul Hasan al-Nuri (“Moradas dos Corações”)

– Há quatro moradas nos corações. Allah deu ao coração quatro nomes: peito, coração, coração profundo (é a sede da gnosis) e o coração recôndito (é a sede da proclamação da Unidade de Allah).

– Proclamar a Unidade de Allah implica afirmar que Allah (al-Haqq: a Verdade) transcende tua própria percepção Dele.

– A gnosis (marifa) implica o conhecimento positivo de Allah através de seus excelsos atributos e de seus nomes..

– A gnosis não é possível sem que se proclame a Unidade de Allah (tawhid).

– Aquele que não proclama a Unidade de Allah não possui a gnosis. E aquele que não tem gnosis (marifa) não tem fé…

– Allah criou uma casa no interior do crente, que se chama coração.

– Allah colocou no fundo da casa o divã da Unidade (tawhid)… Depois plantou na frente da casa a árvore da gnosis, cujas raízes penetram no coração do crente enquanto suas ramas se estendem ao céu.

– Allah abriu na casa do coração uma porta que conduz ao jardim de sua misericórdia.

– Há três corações… O primeiro é o coração do infiel. O segundo é o coração do fiel e é a residência dos sábios… Por último está o coração do gnóstico, que é uma morada cheia de tesouros dignos de um rei…

– Allah tem jardins sobre a face da terra… E estes jardins são os corações dos gnósticos.

– Allah criou no coração do crente sete castelos com cercas e muros ao redor. Ordenou ao crente que se mantivesse dentro desses castelos. O primeiro castelo cercando o ‘rubi’ é o conhecimento místico (marifa) de Allah. O segundo, ao redor do primeiro, é um castelo de ouro, que é a fé em Allah. O terceiro é um castelo de prata, que é a pureza da intenção… O quarto é um castelo de ferro, que é a conformidade com o divino beneplácito. O quinto é um castelo de bronze, que é a execução das prescrições de Allah. O sexto é um castelo de alumínio, que é o cumprimento dos mandamentos de Allah. E o sétimo é um castelo de cerâmica, que é a educação da alma sensitiva.

– No interior destes castelos (no castelo de rubi, que é o mais interior), satanás não tem maneira de chegar até ele.

– O fogo da gnosis queima o apego às coisas deste mundo.

– Há três luzes no coração do gnóstico: a luz da gnosis (marifa), a luz do intelecto (aql) e a luz da ciência.

– Através da luz da gnosis o gnóstico contempla a seu Senhor. O gnóstico sabe que Allah é seu senhor.

. Quando o servo de Allah percebe pela luz da gnosis e pela via da contemplação, vê a Allah através da porta da gnosis. E quando o gnóstico o contempla frente a si, o gnóstico o vê através da porta da glória…

– Quando a chuva da generosidade (divina) cai sobre o coração, a árvore da gnosis (marifa) cresce…

– A fala do coração do gnóstico se ocupa do dhikr.

– A gnosis (marifa) no coração do crente é como uma árvore que tem sete ramos…

– Dez jardins constituem o coração do gnóstico (proclamação da Unidade de Allah, caminho reto, certeza, humildade, legitimidade, bondade, generosidade, sinceridade, contentamento e sabedoria).

– Se o gnóstico chega a encontrar no jardim da proclamação da Unidade de Allah os espinhos da idolatria e da hipocrisia, os arranca e os joga fora…

[notas a partir da tradução de L. López-Baralt]

Sentenças dos ‘Hikam’ de Shaykh Ahmad al-Alawi

Sentenças dos ‘Hikam’ de Shaykh Ahmad al-Alawi

– Há dois graus entre os gnósticos: o que conhece a seu Senhor e o que conhece a sua alma (naf).

– Se desvelar-se (a ti) o segredo do gnóstico (arif), captarás a realidade interior da Profecia.

– Se vires o gnóstico recitando o dhikr saiba que ele está distraído. Quando se encontra no estado de Presença é o silêncio o que corresponde a esse estado.

– A contemplação do Real (al-Haqq) é separação [há alguém que contempla]. A verdadeira união é estar ausente de si mesmo e d’Ele.

– A Realidade Una é inacessível à percepção…

– A verdade está além de ‘tu’, ‘ele’, ‘eu’.

– O Único real é Uno.

– Há dois contrários que jamais se unem: se tu és, Ele não é. Se Ele é, tu não és. Assim que abandones tua existência, o Convocador Supremo te chamará até Ele.

– Não há um átomo na existência que não contenha um dos nomes do Adorado.

– A Tawhid (Unidade) não é o que está escrito nas folhas de papel…

– As pessoas que mais exageram a transcendência de seu Senhor são as mais distantes Dele. Não exageres sua transcendência. Conhece-o em sua imanência.

– Quem busca Allah por outro meio distinto da sua alma nunca o encontrará.

– Não chegam a Allah todos os que o buscam…

– O segredo reside no coração…

– Quem provou a doçura da conversação íntima…, já não suporta a conversação com as criaturas.

– A gnosis (marifa) precisa de um suporte…

– Quem fortalece sua contemplação perde sua timidez.

– Pedir mais [não estar satisfeito] é uma das manifestações da ignorância do aspirante.